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O PAPA

by David Albahari

traduzido por paulo da costa

 

 

Quando o Mendoza se benze perante as camaras de televisão à saida do relvado, o Papa, excitado, endireita-se na poltrona. Ele olha à sua volta, mas os cardinais dormem serenamente nos seus cadeiroes confortaveis. O Mendoza desaparece do ecran. Nesse instante o Papa sente novamente o peso da solidão, mas entretanto o jogo continua, e ele sucumbe às paixoes inarticuladas do futebol.

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O Papa gosta de falar com os soldados. Eles contam-lhe histórias de lugares distantes que ele nunca visitou. "Eu gostaria de ser soldado," pensa o Papa, parando em frente das tropas em fila. Os soldados chegaram de longe. Eles estão sujos, empastados com suor e sangue. Alguns dificilmente se aguentam de pe, outros dormitam, amparados pelas suas armas. "Soldado," o Papa dirige-se a um soldado magricela e repara nos pêlos adolescentes acima do labio, "podes me dizer que tal é Jerusalem?" O soldado tenta fazer peito, e o Papa repara como os musculos tremem pelo esforco e exaustão. "Quando lá cheguei," diz o soldado, "só vi cinzas."

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Ao deambular por corredores interminaveis, o Papa repara pela primeira vez na simetria da repetição. Quando ele levanta a cabeça, ele vê arabescos, o significado dos quais ele não consegue imaginar. "Porque é que tudo deverá ter significado?" pergunta-se o Papa num sussurro, mas imediatamente fecha a boca e olha rapidamente à sua volta. Hoje em dia até as paredes tem ouvidos.

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O Papa acorda cedo. A janela está aberta, o ar fresco, o céu azul, etc. O Papa levanta-se, tropecando na sua camisa de noite, e repara num pássaro no parapeito. O Papa regressa à mesinha de cabeceira, mas não encontra restos do pao da noite passada. "Passarinho," diz o Papa ao pássaro, "esperas um momento enquanto eu mando chamar alguém para trazer um bocadinho de pão?" O pássaro não responde. "Talvez prefiras cereais-trigo ou milho?" O pássaro continua calado. O Papa pega no telefone e liga para o celeiro do Vaticano. Uma voz sonolenta diz, "Estou," "Há milho no celeiro?" pergunta o Papa. "Quem pergunta?" diz a voz. "Esquece," diz o Papa e desliga.

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Durante muitos anos ele não tinha conhecimento da existencia de espelhos. Mas um dia levaram-no a uma sala onde inumeras superficies lisas reflectiram o seu rosto. Nesse momento o Papa imaginou um mundo cheio de Papas e satisfeito estalou a lingua. De seguida chamou o homem dos consertos e mandou-o remover todos os espelhos. O Papa guardou um, no sotão, o qual ninguém tinha conhecimento.

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Se há algo que ele odeie é as manhãs. Sempre que acorda, parece que ele encontra a sua camisa de noite completamente enroscada até ao pescoco. "Prefiro dormir em pijamas," diz o Papa, e zangado bate o pé no chão. Os cardinais entreolham-se. "E também estou farto desta touca," grita o Papa atirando a touca pelo ar. A touca cai em cima dos chinelos de seda, um presente do embaixador Turco. "O nosso regulamento não permite tal coisa," um cardinal ganha coragem e diz. Regulamentos, pensa o Papa, que diabo. Eu deveria ter continuado um simples padre de aldeia.(...)

 

 

 

 

 

 

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