De Calgary com sabor (e saber) português

De Calgary com sabor (e saber) português

Um novo Livro com “raízes” portuguesas

Fernando Cruz Gomes

“The Scent of a Lie” é um novo livro do escritor luso-canadiano Paulo da Costa, cujo lançamento foi agora feito pelas Ekstasis Editions, em Victoria, BC..”The Scent of a Lie”, escrito em inglês, contém um conjunto de catorze contos entrelaçados que  decorrem numa vila fictícia situada no Norte de Portugal.

Paulo da Costa entende a vida como “uma marcha rumo a uma maior perfeição” que se atinge, talvez, “trabalhando, trabalhando muito”. O que o faz andar é, afinal, “acreditar numa visão do mundo e da condição humana plenas de esperança, uma visão que vive e sobrevive face aos inúmeros desalentos e desafios”. Daí o facto de se considerar optimista, como disse, há dias, à Lusa.. “Sou optimista mas tal não significa que não viva consciente das cruas realidades com que nos deparamos. No entanto, o facto de identificar esses desafios proporciona-me mais alento e ímpeto para transformar essas realidades, ou no mínimo, para lhes fazer face com dignidade e esperança”.

O livro é, talvez, “inspirado” em certos recantos de Portugal. E há coisas de Portugal que ainda hoje o fascinam. “O que ainda me fascina em Portugal é o facto de o país e o povo português ainda preservarem muitas características duma sociedade à medida humana em que as relações humanas e sociais prevalecem face às pressões económicas e tecnológicas”, diz Paulo Costa, raciocinando que essa resistência “atrai-me e inspira-me em termos da necessidade da preservação dos valores humanos de solidariedade, inclusividade, fraternidade e que hoje em dia parecem encontrar-se em vias de extinção”.

ENTRE A SOCIEDADE AGRÁRIA E A SOCIEDADE INDUSTRIAL

E depois Portugal, na óptica do escritor, “ainda se encontra numa fase de transição entre uma sociedade agrária e uma sociedade industrial preenchida de valores consumistas e de acumulação de bens, ou porque esses valores humanos e espirituais permaneçam, porventura, a ser prioridades, como tal, defendidos como valores fundamentais para o povo português”. E especifica que o futuro se encarregará de demostrar “por que caminho iremos enveredar”.

“The Scent of a Lie” é escrito em Inglês. A realidade retratada no livro “não é sui generis para a maioria dos Portugueses da minha geração ou de gerações anteriores”. E, no entanto, terá a ver com “a realidade da agricultura de subsistência e as lides do campo eram parte integrante da experiência das populações citadinas com família “na terra” ou aquando das suas visitas “à terrinha”.

Daí que, na sua óptica, essa realidade Portuguesa retratada no livro “talvez desperte mais interesse em culturas não familiarizadas com o modo de ser e de viver português dessa época”. E isso apresenta sempre “um aspecto exótico e talvez mágico para os leitores de língua inglesa, da mesma forma que para nós ler um escritor indiano a retratar a sua sociedade nos transmite um sabor de exotismo e curiosidade especiais”.

Conta ter começado a escrever em inglês por mera coincidência contextual geográfica. “A minha língua de vivência diária era e é o inglês e daí que naturalmente a minha veia criativa assim se expresse”, como diz. Não fazia sentido escrever em português “já que as minhas reacções á vida, ao quotidiano, são sentidas em inglês e daí o fluir natural da escrita para a língua de vivência diária. O facto de a minha família se encontrar em Portugal e de eu também não ter contacto com a comunidade portuguesa de Alberta colocou a língua portuguesa numa situação secundária em termos de como digiro as minhas experiências, imagino os meus mundos literários, expresso a minhas visões do mundo”.

O ESCRITOR “ESTÁ” NA COMUNIDADE PORTUGUESA

Às vezes há razões para o afastamento da comunidade portuguesa. Para Paulo Costa, não. “O meu desfasamento com a comunidade portuguesa não se deve a uma negação das minhas origens lusas, uma vez que sempre me orgulhei de ser português e da nossa cultura, mas deve-se simplesmente ao meu contexto individual e aos meus interesses pessoais, que parecem, em geral, encontrar-se um pouco desfasados das preocupações ou interesses centrais dos outros portugueses radicados no Canadá. Talvez por isso não encontre Portugueses através das actividades a que me dedico ou que me interessem. Seria, aliás, inconcebível para mim, por exemplo, inglesar o meu nome. As pessoas nos meus círculos pessoais sabem que sou português. Quando efectuo leituras públicas inicio a leitura com um poema em português. Deste modo presenteio o publico com os sons da língua portuguesa e para lhes comunicar que essa língua, a musicalidade dessa língua mãe ainda influencia e informa o ritmo da narrativa do texto na língua inglesa. O próprio livro está polvilhado com palavras portuguesas que não traduzo, mas que são palavras que espero que o leitor inglês enquadre no contexto da narrativa.

O escritor diz ter regressado, recentemente, à Língua Portuguesa, recomeçando a escrever em Português. Passa mais tempo em Portugal. “Em suma – refere – não escrevo em inglês como estratégia comercial para abranger mais mercados literários. Presentemente escrevo em ambas as línguas, muito embora a prevalência ainda seja do inglês uma vez que é a língua que continua a ocupar mais espaço na minha vivência diária. Em 2004 uma editora portuguesa irá publicar um livro meu de poesia em português”.

Paulo da Costa, que nasceu em Luanda, Angola e viveu a sua juventude em Vale de Cambra, Portugal, reside, desde 1989 em Calgary, Alberta. Está representado em publicações de dezanove países em quatro continentes. A CBC Rádio – Alberta Anthology difundiu uma das suas histórias. Foi vencedor do prémio Cannongate 2001 para o conto (Festival Internacional do Livro de Edimburgo – Escócia) e também finalista da CBC Literary Competition e da Writers Union Competition ( União de Escritores ) em 1998. É director da revista literária filling Station. Em 1998 foi seleccionado bolseiro da Alberta Foundation for the Arts, e em 1999 do Canada Council for the Arts.

ATÉ ONDE PODERÁ IR PAULO COSTA?

A pergunta formulada. Até onde pode ir Paulo Costa, escritor? O que é que lhe falta fazer? – Para ele, trata-se de um dos mistérios da sua vida. De qualquer modo, “desconhecer o amanhã, o facto de não podermos antecipar o que nos espera é uma das delícias, assim com um dos terrores da existência humana”.

E não perdendo muito tempo numa resposta que o não seria, conta que vai vivendo “aberto à aventura do desconhecido”. O mesmo desconhecido que o trouxe a terras do Canadá e “que, com certeza, me continuará a trazer surpresas”.

Concorda que, com este livro, “a possibilidade de abertura de outros mundos tornou-se um facto mais plausível”, entendendo ainda que “o desfecho encontra-se parcialmente na mão dos leitores e da sua reacção ao livro”.

Ainda lhe pedimos para se pôr na pele de um crítico e dizer o que pensa do livro e do escritor Paulo Costa. Não é fácil? Olhe que é.

REALISMO MÁGICO

“O livro The Scent of a Lie é um conjunto de catorze contos entrelaçados e que poderá ser lido como um romance em fragmentos já que os personagens deambulam de conto para conto. Os personagens principais, na minha opinião, acabam por ser as duas aldeias retratadas no livro; livro que acaba por ser um romance de lugar, onde a geografia e a entidade social e física que é uma comunidade, acabam por demonstrar alma própria e as aldeias emergem como os protagonistas principais”.

Para ele, “o livro tem tons de realismo mágico e alguns dos personagens tem visões e existências peculiares”.

E especifica: “A Camila Penca após ter caído a um poço descobre que tem o dom de detectar mentiras pelo cheiro das palavras proferidas pelos aldeãos. Tal dom desequilibra, de imediato, a dinâmica das relações sociais e pessoais da aldeia na sua existência diária, e desesperadamente a aldeia procura a todo o custo uma solução para preservar o status quo prévio”.

Há ainda o Florindo Ramos “que mais facilmente se identifica com o mundo natural de que com a sua espécie humana, na sua cegueira de autodestruição, e então opta por se casar com uma árvore, facto que terá consequências imprevistas para a aldeia”.

“Temos também – continua a contar – o Francisco, pastor, o qual, durante as suas incursões pela serra descobre pedras que dão à luz outras pedras convencendo-se que encontrou o local onde o mundo nasceu. Essa descoberta terá consequências imprevisíveis para a aldeia. Existem muitos mais personagens com as suas idiossincrasias e existências peculiares mas estes são uma amostra do tipo de personagens contidas no Scent of a Lie”.

O livro é um estudo. Debruça-se sobre “mitos” e sobre “porquês”. Tenta entender coisas do dia-a-dia, às quais busca o mais recôndito. “Muito embora o livro se debruce sobre preocupações especificas de duas aldeias portugueses abandonadas num tempo passado, essas preocupações continuam, na minha perspectiva, a ser perenes a todas as comunidades e deste modo os contos adquirem caracter universal”, rematou.

Um livro que vale a pena ler. Que importa ler.

This entry was posted in Entrevistas and tagged . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *