efêmero

paulo da costa

(tradução de Mauro Faccioni Filho, Brasil)

passo a passo

cavo vales

sob cada pisada

a formiga escala

montanhas de areia

recém erguidas

esta é a força

a moldar o mundo

cada pernada, junto

da areia molhada

vai mais fundo, dura

o mais breve momento

como uma onda

estende sua língua

acariciando a praia

e pegadas deixam-me

como se eu nunca tivesse

caminhado aqui

 

 

 

 

 

paulo da costa

(tradução de Mauro Faccioni Filho, Brasil)

  1. predador

    O coiote faminto

    ronda minha casa

    adormecido comovo-me

    perplexo com pesadelos

    o coiote segue

    minhas pegadas

    pela neve

    até o degrau da porta dela

    meu degrau

    para ela

    seu coração

    uiva uma canção sem retorno

    escorrendo pela neve derretida

    Os olhos azuis

    de sua própria decepção

    fizeram-no perceber

    que a caçada falhou

    esse janeiro fraco

    sua fria mandíbula

    crava os dentes

    irritados no osso elástico

    Eu desperto,

    pouso minha mão no peito dela.

    Nossos corações ainda rimam quando batem.

  2. Inverno

O inverno é longo

a caça um velho hábito

o inverno retornará

a caça nunca termina

O perfume do sangue

suspenso no ar

atração magnética

e a retração da lua

na mente de um amante

a última linha

jamais escrita

 

 

 

 

paulo da costa

(tradução de Mauro Faccioni Filho, Brasil)

gota a gota

uma garoa surge

leve, quase

amável, sufocante

céu, o ruído

de um homem ou uma mulher

lutando

querendo ir pro sul

ali bem perto

de uma miragem do deserto

mas não há lugar

na terra em que lágrimas não

estatelem-se pelo chão

é a gravidade habitual

até as tempestades

brotam tênues de si mesmas

e fúria é um vento

sem uma pipa

©paulodacosta2000

 

 

 

 

©paulodacosta