tradução de texto, tradução do eu

 

tradução de texto, tradução do eu

 

Imagine-me diante de um espelho, a conversar, a discutir. Peço clarificação sobre o sentido de uma palavra ou argumento a palavra mais precisa para expressar a minha experiência em duas línguas cara a cara na minha mente. Esta imagem pode evocar um indício de insanidade ao observador distraído. Por outro lado, para aqueles mais benevolentes, pode parecer um ato de contorcionismo: ioga cerebral. Este processo implica recompensas e armadilhas. O constante vaivém de línguas dentro da minha mente não está livre de colisões e tramas descuidadas. A separação não é alcançada com facilidade. Por vezes, a junção de palavras pode ser benéfica.

Traduzir-me a mim mesmo oferece uma segunda oportunidade para reforçar o texto original, um texto que, por si só, já reflete uma tradução existente, a tradução da minha imaginação e das minhas emoções, dos meus pensamentos e imagens pelas palavras.

A tradução linguística para português ou inglês, a segunda tradução, estabelece um ciclo de reações para o eu que traduziu o mundo dos meus sentidos. Ela testa a eficácia do texto inicial em relação à sua precisão, pondera a fidelidade das suas palavras, acentua o foco das suas imagens. A tradução reacende um diálogo e induz-me a voltar ao meu texto original para aperfeiçoar uma imagem ou incentivar o amadurecimento de um novo pensamento. Regresso para melhorar a tradução do meu raciocínio, dos meus sentidos e, no final, obter um trabalho criativo que na realidade não me atraiçoe o ímpeto original. Como tradutor do meu trabalho sou obrigado a tornar-me um escritor mais atento, a melhorar as minhas competências comunicacionais, e beneficiar de um segundo par de olhos com os quais retoco a página de uma perspetiva renovada.

O processo de tradução revela as lacunas existentes num texto de partida, a sua inerente visão de raio-x do edifício expõe, caso exista, uma fundação inadequada ou os toques de acabamento apressados na «casa» das palavras. Não há leitor mais atento da obra de um autor do que o olho amplificado de um tradutor que percorre as páginas com a devida atenção. Este envolvimento empenhado começa com um sentido de responsabilidade respeitosa, aquele que detém nas suas mãos a voz do outro e abraça a tarefa de transportar essa voz na sua integridade para outro contexto, outra língua. Como tradutor falo em nome de outrem e, por conseguinte, estou obrigado a compreender esse outro quando me esforço por conseguir obter uma tradução eficaz. Tenho de compreender as variadas implicações de uma única palavra, caso contrário um parágrafo pode pesar nos meus ombros e gerar apreensão, ou então uma enorme ansiedade. Sem tais apreensões, um leitor atento pode percorrer a paisagem de um texto sem o peso da responsabilidade, talvez esse tipo de leitor assuma a jornada de leitura dos seus próprios preconceitos, uma viagem não muito diferente da vida diária cheia de lapsos de compreensão.

No processo da minha tradução entro num processo colaborativo de criação que afeta e transforma sempre o texto original. Há liberdade e igualdade nessa interação. A minha tentativa de compreender e transmitir o texto original provoca mudanças. Ao invés da relação mais comum entre autor e tradutor, que é unidirecional, a minha experiência interativa percorre um caminho de duas vias.

Acredito existir uma aceitação inerente de que nenhum tradutor possa possivelmente falar em nome de outro sem perder ou acrescentar variáveis à equação de entendimento, pelo que a aproximação é uma condição de envolvimento. Este quadro de aceitação propaga a tensão e a distância, prudência e desconfiança que permanecem cravadas no relacionamento. Ao traduzir a mim mesmo, a confiança é inerente. Não posso trair-me a mim mesmo sem conhecer a transgressão e o peso da responsabilidade, o medo de não corresponder às expectativas dissolve-se.

Uma vez que um tradutor deve compreender plenamente um escritor para falar em seu nome, a tarefa está condenada ao fracasso. Não porque os tradutores sejam particularmente ineptos a compreender a linguagem, mas porque nem mesmo os autores compreendem todo o manancial de possibilidades de um texto. Essa é a poesia da linguagem, ou seja o mistério. A ressonância das nossas palavras é ilimitada. Trata-se de um eco sem fim, um eco que avança ao longo do corredor dos séculos, e ressalta em ângulos únicos para fora da textura inconstante de culturas em evolução e tempos de mudança. Não se pode compreender uma pessoa que não consiga compreender a soma do eu. E nenhuma pessoa compreende inteiramente o eu. Talvez a vida seja uma jornada para descobrir as profundezas de quem somos, a cada momento.

A dança da aproximação exprime a condição do exercício da tradução, as suas imperfeições ou a essência da sua beleza depende da perspetiva e das expectativas do leitor. Se for aceite a impossibilidade de uma confluência integral, então a dança do desencontro torna-se a essência da experiência. É assim que deve ser. Aceito a impossibilidade de traduzir-me a mim próprio na totalidade. Como as palavras mudam de forma e sonoridade na viagem de uma língua para outra, como muda o terreno inconstante, o espaço entre a chamada e a resposta da interação incorpora a essência que pretendo criar, uma terceira entidade. O casamento do texto original com o tradutor, este casamento de duas línguas irá incorporar uma parte de ambos, uma parte que adota semelhanças com os progenitores, mas único em si mesmo.

Traduzir-me a mim mesmo oferece-me uma oportunidade para fortalecer a tradução própria e tornar-me num escritor mais atento e eficaz.

 

(…)

excerto e versão portuguesa de um ensaio incluído no livro:  Para lá das Touradas e do Hóquei no Gelo – A Arquitetura da Multi-Nacionalidade,   Ensaios sobre cidadania, literatura e linguística, ( Beyond Bullfights and Ice Hockey 2015 )

Livro e ebook serão vendidos a partir de Abril de 2015 pelas Livrarias da Amazon nos EUA GB Espanha Alemanha

 

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